sexta-feira, 7 de junho de 2013

CONVERSÃO E RENOVAÇÃO EM OSÉIAS 14, 2-9 (por José Bakir)

1.    Situação religiosa de Israel
Dentro desta questão da situação religiosa, Israel vivia em uma situação de infidelidade. Esta infidelidade se mostra antes de tudo no culto a Baal, que era considerado o deus da fertilidade. No culto a Baal se praticava às vezes a prostituição sagrada, o que acarretará a infidelidade das mulheres, os filhos bastardos e a esterilidade. No culto a Yhwh continuava a perversão de representá-lo em imagem de ouro. Outra forma de infidelidade são as alianças políticas, em particular com a Assíria e o Egito, dos quais o poderio político e militar ocupa o lugar de Deus. Suas conseqüências são a dependência política e econômica, tributos pesados, por fim a repressão e a deportação.
Com relação ao culto aos baal (senhor/proprietário = deus da fertilidade) a religião baalista é, fundamentalmente, da natureza e procura garantir a fertilidade do solo e dos animais. Aqui se percebe a diferença com o javismo que prega uma questão ética no relacionamento entre os seres humanos. Quando Baal não consegue realizar a tarefa dele, vem a seca, o que quer dizer que Baal morreu. Na realidade ele estará sempre nesta luta contínua com as forças da natureza. Quando ocorre o período da seca, que quer dizer a morte de Baal, Anat, sua irmã/esposa, luta contra Mot, vence e liberta Baal que volta a trazer as chuvas e a fertilidade sobre a terra.
O que acontecia no culto a Baal era uma hierogamia (casamento sagrado) era uma mímica do que aconteceu entre Baal e a natureza. A chuva representa o esperma de Baal fecundando a terra. Dentro do culto tinha a questão das imagens como representação de Baal.
A diferença do baalismo com o javismo é que o javismo tem uma preocupação ética no relacionamento entre as pessoas, é uma religião de um Deus presente na história do seu povo e a terra pertence a Javé, o homem apenas cuida dela. Como Baal não tinha lugar comum onde pudesse ser cultuado, era fácil expandir o baalismo. Em se tratando de prática de rituais os israelitas aprenderam dos cananeus que tinham uma cultura religiosa sedentária.


2.    Israel sempre tendente ao pecado
O profeta inicia seu profetismo a partir de uma experiência pessoal: apaixonou-se e casou-se com uma prostituta. Tal experiência o marcou profundamente, pois, ele a amava muito e ela o abandonou. Mas, apesar de ter sido abandonado pela mulher amada, ele continuou a amá-la e a recebeu novamente, depois de pô-la à prova.
A experiência de vida do profeta é de suma importância para sua pregação. Seu matrimônio não foi um ato simbólico. Isto realmente aconteceu na vida do profeta e se dá pelo fato de os nomes da mulher e do pai dela na ter nenhuma relação simbólica. Outro fato é o nome da filha em uma realidade machista. Sua vida transforma-se em uma espécie de parábola que o ajudará a compreender o processo de relação de Deus com o povo que leva a uma conversão e servirá de auxílio em sua pregação.
Em Oséias é expresso pela primeira vez a relação entre o Senhor e Israel nos termos de um matrimônio. Toda sua mensagem tem como tema principal o amor de Deus desprezado por seu povo. A imagem do amor do profeta por uma prostituta relacionada ao amor de Deus por Israel exemplifica bem a idéia de um povo que tende sempre para o pecado. Dificilmente uma prostituta se converte totalmente a um único homem, ou melhor, a único amor. Ela pode permanecer ligada a este amor por um determinado tempo, mas, volta a se “perder” entre outros amores por causa de sua infidelidade. Assim como a prostituta, Israel portou-se como uma mulher infiel e provocou a ira e o ciúme de seu “esposo divino”, o qual não deixa de amá-la, e a castigará, mas, com o desejo de reconduzi-la a si e devolver-lhe as alegrias do seu primeiro amor.
É esta relação que vai permear o relacionamento entre o Senhor e seu povo Israel. De um lado o povo que permanecia infiel e fazendo cultos aos baais. Do outro um Deus que ama e está sempre disposto a perdoar.

3.    Javé está sempre disposto a perdoar
O eixo central da pregação de Oséias é a teologia do amor de Deus para com o seu povo. Quando o profeta pensa esta temática ele pensa, como conseqüência da acolhida deste amor, em uma atitude de miséria entre o povo.
A compreensão da relação deste amor se dá a partir da experiência concreta na vida do profeta, pois, para ele esta relação está ligada a uma fidelidade de Israel a este amor. Para ele o amor de Deus independe da resposta de Israel (11,9). O amor de Deus é totalmente gratuito. Este conceito de amor-misericórdia se torna central na pregação de Oséias e torna-se mais figurante na medida em que Deus tem amor por um povo que não tem amor. O cap. 11 é um relato do conflito entre Deus e o povo por causa desta relação deste amor.
A razão é significativa: “um homem cederia à cólera provocada uma e outra vez, desligar-se-ia de um pacto violado pela outra parte”1. Deus, porém, não está condicionado pelo comportamento humano: a santidade de Deus pode manifestar-se convertendo e salvando. Não obstante o comportamento obstinado do povo, o Santo continuou no meio do seu povo, não atingido pela agressão do inimigo nem pelo afastamento dos seus. Somente atingido e como que transtornado por amor mais forte que tudo o mais.
No capítulo 11 o profeta compara a relação entre Deus e Israel como a relação que existe entre pai e filho. Embora não compreendido, Javé permanece fiel e, no seu amor, continua sempre de braços abertos para receber o filho de volta. É este o amor que Deus tem para com o seu povo, um amor incondicional que não mede esforços. Com isto o profeta quer mostrar que o Senhor tem em vista a reconciliação de seu povo com Ele.
Oséias revela a questão do “conflito” existente entre Iahweh e seu povo escolhido. Porém, a palavra de Deus fala mais forte e esta palavra é do amor. Um amor incondicional que, apesar dos erros cometidos pelo povo, é capaz de perdoar e renovar a aliança feita com o povo. É deste amor que o profeta fala ao relacionar a sua experiência de vida com a experiência de Deus para com Israel.




4.    Compreendendo o texto de Os 14, 2-9:
5.    2. Volta, Israel para o Senhor teu Deus,
pois, tropeçaste em tua falta.
6.    Chamado à conversão e ao arrependimento.
7.    3. Levai as palavras na ponta da língua, voltai-vos para o Senhor e dizei-lhe: “Perdoa toda culpa e segura a felicidade, e nós retribuiremos com o fruto dos lábios”.
8.    Não se fazem cálculos interessados, fundamentados em falsas seguranças: pede-se o perdão e há o propósito de corrigir-se. O povo apresenta agora como dom a confissão de seus lábios.
9.    4. A Assíria não nos pode salvar, não montaremos a cavalo e não diremos mais ‘Nosso Deus’ às obras de nossas mãos, _ ó tu que tens piedade do órfão!”.
10.  A Assíria sintetiza a política de alianças, a cavalaria representa o poder militar. O Deus de Israel é essencialmente salvador, não por mérito ou direitos do homem, mas, porque se compadece dos fracos.
11.  5. Vou curar de sua desobediência, eu os amarei com generosidade, pois a minha ira afastou-se dele.
12.  Resposta divina à confissão do seu povo que anuncia a vitória do amor sobre a ira.
13.  6. Serei como o orvalho para Israel, ele há de florescer como o lírio, lançará suas raízes como cedros do Líbano.
14.  Orvalho autêntico e efêmero. Fala da prosperidade de Israel que está representada pelo lírio.
15.  7. Seus galhos se espalharão, seu esplendor será como o da oliveira e seu perfume como o do Líbano
16.  Fala do futuro do povo de Israel.
17.  8. Voltarão aqueles que habitavam à sua sombra; farão reviver o trigo, florescerão como videira, sua lembrança será como a do vinho do Líbano
18.  “Sombra” oposta à idolatria de 4, 13. Seguindo o movimento das comparações, corrigimos o texto massorético, que diz: “darão vida ao grão” 7, 14 e 9, 1. Como videira, segundo 10, 1.
19.  9. Efraim! Que tenho ainda a ver com os ídolos? Eu é que tenho a resposta e quem olha para ele. Eu sou como cipreste sempre verde, de mim é que brota o teu fruto.
20.  Deus é quem fala. Ele nada tem a ver com os ídolos, “responde” à confissão e a súplica do povo, “olha” a sua aflição. Somente Deus pode assegurar a fecundidade de Efraim.

21.  Lugar e papel da perícope no conjunto do texto
Esta perícope é colocada no final do livro do profeta Oséias e nos remete ao início de sua profecia. O objetivo da pregação do profeta é provocar a conversão. Contudo, a mortandade não constitui o final. O lugar que ocupavam 2, 15-25 e 11, 8-11, em suas respectivas unidades, o ocupa este final, que é além disso final de todo o livro. Por isso não é acidental que se abra com chamado à conversão e termine com a garantia dos frutos.
A perícope que antecede é 13, 12-14, 1 que trata da ruína inevitável. Nesta perícope percebe-se que em marco que fecham pecado e reato, apresentam-se duas imagens rápidas de fecundidade, tanto no mundo humano como no vegetal. Entre as duas compõem a correlação de culpa e castigo.
As dores fecundas da parturiente são imagem que vai passar até o pensamento apocalíptico como dores da história a fim de dar à luz nova era. Assim como existe uma sensatez ou instinto vital que ensina às escuras, também existe um juízo ou sensatez histórica, que o homem cultiva e a palavra de Deus educa. O contrário é a inconsciência ou rebeldia fatias: recusar a brecha pela qual se sai para a luz e para a vida. Temores, nostalgias avitas que nos deixam fechados e sepultados, com nosso pecado e nossa culpa. O que liberta são a firmeza vigilante, o rompimento corajoso. Oséias nos transmitiu nestes versos um símbolo magnífico e riquíssimo que diversos autores, tanto do AT como do NT, encarregar-se-ão de explorar.
A perícope que segue a que estamos trabalhando aqui é 14, 10. Este pequeno trecho trata da questão da advertência final. Acredita-se que se trata de um acréscimo em estilo sapiencial2.
O autor que, com os oráculos de Oséias, compôs o livro que leva esse nome, acrescentou esta nota final para o leitor. Com um par de repetições, ele a aprendeu ao resto do livro. A leitura pode surtir estranha e difícil, exige esforço de compreensão como também atitude correta. Porque o livro descreve os caminhos, o estilo de Deus, que em si são sinceros e retos. Se o homem que os percorre tropeça, se escandaliza, isso é devido à sua atitude rebelde. Compreender não é ato puramente intelectual: não é ato, visto ser caminho que se percorre, não é puramente intelectual, visto exigir atitude correta. Não se trata de ciência, mas, sim, de sabedoria. A palavra profética convida e desafia o homem.

6.    A esperança de Javé em ralação a Israel
Como já foi dito anteriormente o objetivo da pregação do profeta é provocar a conversão3. A esposa infiel (Israel) não só é reprovada e censurada pelo esposo fiel (Javé) irado, mas, é também, e principalmente, cortejada e convidada a retomar seu amor verdadeiro e deixar seus amantes, sua prostituição.
A palavra chave do livro é converter-se, voltar. De fato, nestes últimos oráculos, há uma chamada à conversão, uma confissão do povo e o perdão divino. Também fica mais uma vez evidente que são os “amantes” que levam um povo à “prostituição”. É a política de submissão a potências estrangeiras, a confiança no poderio militar e o culto a outras divindades, enfim, em nada disso se podem encontrar a certeza de uma recuperação política, um florescimento econômico e até mesmo a salvação. Podemos concluir que todo o livro de Oséias gira em torno do primeiro mandamento do decálogo.
O eixo central da teologia de Oséias é, em suma, a teologia do amor de Deus para com seu povo. Quando o profeta pensa esta temática ele pensa, como conseqüência da acolhida deste amor, em uma atitude de misericórdia entre o povo. A compreensão da relação deste amor se dá na experiência concreta na vida do profeta, pois, para ele esta relação está ligada a uma fidelidade de Israel a este amor. Para Oséias o amor de Deus independe da resposta de Israel (Os 11, 9). O amor de Deus é totalmente gratuito. Este conceito de amor-misericordia se torna mais figurante na medida em que Deus tem amor por um povo que não tem amor. O capitulo 11 é um relato do conflito entre Deus e o povo por causa desta relação de amor.
Para que realmente haja um verdadeiro amor do povo por Deus, é necessário ter um conhecimento deste Deus. Não se trata de um conhecimento teórico/científico, mas, sim, de um conhecimento interno, de uma experiência pessoal, de comunhão profunda de Deus. O profeta fala de que o povo de Israel não tem este “conhecimento de Deus” (6, 6). A fidelidade a Deus não reconhecida em um culto falso, mas, na prática da misericórdia. Neste sentido o profeta culpa os sacerdotes. O profeta se levanta contra esta lógica e não culpa somente o povo (4, 4-10 e 6, 9)
A falta de conhecimento de Deus gera a falta de misericórdia que, por sua vez, gera a injustiça social. É como se eles praticassem injustiças e não tivessem nenhum pesar. Da parte do profeta, ele acredita que Israel não é um povo confiável (6, 4). Ele quer dizer que a fidelidade de Israel é quase inexistente (9, 10). Trata de um amor que de nada vale, pois, na primeira oportunidade eles pecam. Em Os 12, 4-5 diz que ainda no seio materno já se cometia injustiça.
O profeta apresenta um Deus que está sempre disposto a amar e a perdoar. Deus tem pelo seu povo um amor incondicional e sempre age em favor dos seus porque foi Ele mesmo quem os escolheu. Ao mesmo tempo Deus espera que também o seu povo use de misericórdia no relacionamento entre eles. É a prática deste amor fraterno e a fidelidade a Javé que livrará o povo da idolatria e, por conseqüência, das injustiças sociais.

7.    Relação entre Os 14, 2-9 e a experiência matrimonial do profeta
Esta perícope trata de um convite à conversão feito por Deus, através do profeta, a seu povo Israel. Para que realmente haja uma conversão verdadeira é necessária uma abertura de ambas as partes, tanto daquele que está chamando a conversão, quanto daquele que está sendo convidado. Neste sentido Deus se coloca inteiramente aberto para perdoar seu povo.
Na relação desta passagem com a experiência matrimonial do profeta que é abandonado pela mulher amada, é o profeta quem vai atrás e faz com que sua esposa se arrependa do mal que fez e volte ao seu senhor. É bonito de se perceber que a tentativa de esquecer a esposa é inútil. O amor é maior que a humilhação e provoca a esperança de que ela mude de atitude. Quem sabe tratando-a com carinho, fazendo uma nova viagem de núpcias, ela reconheça seu erro e volte ao verdadeiro amor, ao recordar os primeiros tempos de casamento.
É exatamente o que Deus faz com seu povo. Relembra os tempos quando o libertou da escravidão do Egito, fazendo com ele uma aliança no deserto. Agora, mais uma vez, promete-lhe paz e abundância na terra da promessa. Embora não compreendido, Javé permanece sempre e, no seu amor, continua sempre de braços abertos para acolher a “esposa” de volta. É deste amor que nos fala esta relação matrimonial do profeta e a relação entre Deus e o povo.
No que diz respeito a esta relação de amor entre Deus e Israel Amsler diz que:

A história de Iahweh e Israel, começada como um encontro amoroso, termina com a evocação da união fecunda de Deus e de seu povo (14, 9; 2, 23-25). O Deus de Oséias é Deus de amor: a primeira palavra nessa aventura foi dele e dele será também a última.4

Aqui se percebe que desde o início esta relação existente entre Deus e o povo é permeada pele amor. Nesta relação quem permanece infiel é o povo e Deus, com sua fidelidade, permanece aberto e disposto a perdoar. Quando Amsler fala que a última palavra é a de Deus ele se refere exatamente a este amor que norteia a relação Deus = homem.

8.    Conclusão
Para o profeta, o conhecimento de Deus não é uma atitude intelectual, mas, uma adesão amorosa, através de uma prática que corresponda ao projeto de Deus, elaborado no deserto por ocasião do êxodo. Então sim: Javé receberá novamente seu povo como “esposa”, dispensando-lhe todo o carinho (2, 4-25), ou tratando-o como um filho.
Já que Oséias teve a audácia de dizer, é preciso que também nós digamos com ele: O Senhor é um Deus apaixonado. Fala do seu desejo, da sua decepção, da sua indignação, da sua cólera e também da sua ternura. É importante perceber que esta ternura é sempre mais forte, pois, a última palavra não pertence à cólera e à punição, mas, à felicidade numa união para sempre fiel. Trata-se de uma ternura que é o contrário da fraqueza: é força de Deus, capaz de transformar o coração do homem e de fazer desaparecer até a recordação do pecado. Deus não espera o retorno do pecador para ir-lhe ao encontro.
O livro de Oséias vai ao que há de mais profundo na teologia e na piedade, pois, revelando a ternura de Deus, reverá Deus tal como Ele é: Amor. Esta definição também se encontra no Evangelho de João onde ele nos diz que Deus é amor. É preciso que saibamos compreender o que realmente este amor, que é o próprio Deus e que Ele tem por nós, representa e significa para nós. A partir do momento que compreendermos este amor, compreenderemos também a mensagem belíssima do profeta.




BIBLIOGHRAFIA
SCHOKEL, L. Alonso e DIAZ, J. L. Sicre. Profetas II. Grandes comentários bíblicos. São Paulo: Paulinas 1991. pp. 887-951
AMSELER et alii. Os profetas e os livros proféticos. São Paulo: Paulinas, 1992. pp. 67-95
Introdução das Bíblias Jerusalém, TEB e Pastoral
1 Cf. SCHOKEL e DIAZ. Profetas II. Grandes comentários bíblicos. São Paulo: Paulinas, 1991. p. 941.
2 Cf nota “e” em Os 14, 10, Bíblia de Jerusalém
3 Cf nota em Os 14, 2-9, Bíblia Pastoral.

4 AMSELER et alii. Os profetas e os livros proféticos, p. 79

quinta-feira, 6 de junho de 2013

LUCAS 15, 3-7

Este evangelho de hoje pertence ao capítulo 15 (quinze) do Evangelho de São Lucas. O capítulo 15 de Lucas é o centro de toda a sua mensagem, tanto do Evangelho, quanto dos Atos dos Apóstolos, onde o ápice é a parábola do Pai Misericordioso (cf. Lc 15, 11-32). As três parábolas são marcadas pela procura, pela alegria – que em Lucas trata-se da alegria escatológica – e pela espera.
            A narrativa de hoje é a ovelha perdida. Esta narrativa é um convite feito a cada um de nós, que lemos e rezamos este evangelho no dia de hoje, a olharmos pra dentro de nós mesmos e a refletirmos sobre nossas atitudes. E nesta reflexão nos questionarmos: Será que temos coragem de abrir mão daquilo que temos e somos para irmos atrás desse algo mais que Deus tem a nos oferecer? Num primeiro momento a nossa resposta pode ser positiva. Mas, como dizia o saudoso economista Joelmir Beting, “A teoria, na prática, é diferente”, isto é, no momento de colocarmos em prática a nossa resposta, não o fazemos.
            Há que se questionar também por que deixar noventa e nove ovelhas e ir atrás de apenas uma? A resposta é muito simples e, até certo ponto, lógica: é porque esta ovelha que se perdeu é a mais bonita, a mais valiosa aos olhos do dono. Com isto, o evangelista quer nos dizer que para Deus temos um valor imenso, somos belos aos olhos do pai. A parábola não quer dizer que Deus prefere o pecador ao justo, ou que os justos sejam hipócritas. Ela ressalta o mistério do amor do Pai que se alegra em acolher o pecador arrependido ao lado do justo que persevera. Não devemos esquecer que, em Lucas, a alegria é escatológica, isto é, a alegria de entrarmos todos no Reino de Deus.
            Hoje a Igreja nos convida a celebrarmos a festa do Sagrado Coração de Jesus. Celebrarmos esta festa é lembrarmos que do coração aberto de Jesus jorrou sangue e água em sinal de uma entrega total, uma doação. É lembrarmos também que toda a humanidade está colocada no coração de Jesus, no mais intimo de Deus, de onde só pode sair coisas boas e belas. Nos mostra a beleza de um Deus que se revela a nós na simplicidade das coisas, na beleza do amor de um Deus que nos ama muito. Aprendamos com Jesus o que é o amor. Deixemos que este amor penetre o nosso coração e nos transforme, nos dando vida e força na caminhada. Amém!

segunda-feira, 14 de maio de 2012

ANÁLISE DA BENÇÃO DO ÓLEO DOS ENFERMOS NA QUINTA-FEIRA SANTA, DA FÓRMULA DA UNÇÃO DOS ENFERMOS E DO TEXTO DO CONCÍLIO DE TRENTO (POR JOSÉ BAKIR)

"Ó Deus, Pai de toda consolação,
que pelo vosso Filho
quisestes curar os males dos enfermos,
atendei à oração de nossa fé:
enviai do céu o vosso Espírito Santo Paráclito
sobre este óleo generoso,
que por vossa bondade a oliveira nos fornece
para alívio do corpo,
a fim de que pela vossa santa  bênção
seja para todos que com ele forem ungidos
proteção do corpo, da alma e do espírito,
libertando-os de toda dor,
toda fraqueza e enfermidade.
Dignai-vos abençoar para nós, ó Pai,
o vosso óleo santo,
em nome de nosso Senhor Jesus Cristo.
Que convosco vive e reina
na unidade do Espírito Santo. Amém"
    
     Ao analisarmos a bênção do óleo dos enfermos, percebemos o quão abrangente é seu significado, pois, a cura é mais do que uma simples cura (cf. Mt 25). Com isto se percebe que o cuidado com os enfermos é sinal do Reino de Deus, pertence à missão de Jesus e dos seus seguidores. As curas feitas por Jesus são gestos simbólicos.
     A benção do óleo é introduzida por uma saudação utilizada por São Paulo. É uma fórmula corrente na piedade de Israel que, aqui na benção do óleo dos enfermos, se refere ao Deus que é Pai e que, como pai, consola seus filhos em todos os momentos, inclusive na enfermidade. O que se pede, na benção do óleo, é a cura das enfermidades, mas, acima de tudo que seja feita a vontade do Pai. É preciso recordar que a vontade do Pai é curar e libertar seus filhos. Esta vontade se realiza por meio do Filho que se fez homem e viveu como nós em tudo, menos no pecado. Ao realizar a vontade do Pai, Jesus mostra esta sintonia existente entre ele e o Pai.
     A benção é uma oração de petição. Em Tg 5, 15 a fé dos oficiantes obtém a saúde do doente, que pelo contexto deve ser a saúde corporal. Pode ser que a doença seja efeito de algum pecado, de acordo com a crença antiga (cf. Sl 38, 4-6). Neste caso, por meio do rito, os pecados lhe serão perdoados. A oração da fé (linha 4) não é uma fórmula que acompanha a unção. Trata-se de uma oração comunitária, pois o doente não está isolado da comunidade. É uma oração que pede algo, isto é, pede salvação e, conforme o caso, pede também perdão dos pecados. Quem pede, pede alguma coisa (linhas 5-9) e, no caso da Benção do óleo dos enfermos, se pede a ação do Espírito Santo Paráclito sobre o óleo. É a graça que Deus dá com o objetivo de salvar e reanimar o que está enfermo. Entende-se salvar como algo que diz mais do que a cura física e reanimar é uma palavra que vem da mesma raiz grega que significa ressuscitar.
     A benção do óleo dos enfermos é benção que vem de Deus (linhas 10-14) e, por meio desta, a ação do Espírito Santo sobre todos aqueles que forem ungidos pelo óleo dos enfermos. É benção que é, ao mesmo tempo, proteção do corpo, da alma e do espírito, ou seja, do homem em sua totalidade (linha 12). Nem morte nem lágrimas, mas, a liberdade de toda dor e de todo sofrimento conquistada em Cristo. O messias toma sobre si o sofrimento para poupá-lo a outros, é salvador por amor (linhas 13-14). As curas são muito mais que sinais apologéticos, pois, nelas apareceu a bondade do nosso Deus e Salvador e seu amor pelo homem (cf. Tt 3, 4).
     A fórmula da unção dos enfermos, que tem seu fundamento em Tg 5, 14-15, é a expressão da misericórdia de Deus que é infinita. Quem ministra a unção dos enfermos são os presbíteros, mas, trata-se de algo que é ministrado em nome do Senhor (cf. Tg 5, 14d). Desta forma, procura expressar a força simbólica do sacramento. A graça a ser conferida é a ação do Espírito Santo para que o enfermo seja liberto e salvo na bondade do Senhor.
     O Concílio de Trento vê a oração da fé como um meio de salvação e o alivio de todos os males e tormentos do corpo como a ação do Senhor na vida do enfermo. Isto se dá por meio da ação do Espírito Santo que é quem interage entre o homem e Deus. Esta é a graça a ser conferida, isto é, a ação do Espírito como algo que gere uma vida nova curando o enfermo e perdoando pecados (se tiver). Para Trento é nesta força que vem Deus, por meio do Espírito Santo, que está a consolação e a confirmação da alma do doente, pois, esta vida gerada pela ação do Espírito é algo consolador e confortador, mesmo que o doente venha a morrer.
     Sendo o sacramento da salvação do enfermo como um todo, a Unção dos Enfermos é essencialmente o sacramento da esperança e não do desespero. Requer um ambiente onde vigore a alegria e a serenidade.

BIBLIOGRAFIA:
SHÖKEL, Luis Alonso. Bíblia do Peregrino. São Paulo: Paulus, 2002.
VENDRAME, Calisto. A unção dos enfermos. São Paulo: Paulinas, 1974
BOROBIO, Dionísio. A celebração na Igreja, vol. II. Sacramentos: “Unção dos Enfermos. São Paulo: Loyola, 1993 (pp. 539-614)

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

POR DO SOL EM MORRINHOS-GO

É um belíssimo por do sol que eu registrei em Morrinhos-GO, um final de tarde maravilhoso no interior goiano. Para mim o por do sol é um presente de Deus para a humanidade, sinal da grandiosidade do seu amor por nós. É uma pena que as pessoas não param para ver o por do sol e contemplar a beleza do criador. "Onipotente e bom Senhor, a Ti a honra, glória e louvor" (São Francisco de Assis)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

A NECESSIDADE DO CORPO (ADÉLIA PRADO)

Nenhum pecado desertou de mim.

Ainda assim eu devo estar nimbada,

porque um amor me expande.

Como quando na infância

eu contava até cinco para enxotar fantasmas,

beijo por cinco vezes minha mão.

Este é meu corpo,

corpo que me foi dado

para Deus saciar sua natureza onívora.

Tomai e comei sem medo,

na fímbria do amor mais tosco

meu pobre corpo

é feito corpo de Deus.

sábado, 11 de junho de 2011

ORAÇÃO EM LÍNGUAS

CANTO DE UM POVO DE UM LUGAR (Caetano Veloso)

"Todo dia o sol levanta
e a gente canta
ao sol de todo dia

Fim da tarde a terra cora
e a gente chora
porque finda a tarde

Quando a noite a lua mansa
e a gente dança
venerando a noite

Madrugada, céu de estrelas
e a gente dorme
sonhando com elas"